Quando a perda gestacional merece investigação hematológica
A perda gestacional (abortamento espontâneo) é mais comum do que se imagina: cerca de 15-20% das gestações clinicamente reconhecidas terminam em aborto espontâneo, a maioria no primeiro trimestre. Na grande maioria dos casos, a causa é uma alteração cromossômica aleatória do embrião — um evento isolado que não tende a se repetir.
No entanto, quando ocorrem duas ou mais perdas gestacionais consecutivas (abortamento de repetição), ou quando há uma perda tardia (após 10 semanas), a investigação de causas tratáveis se torna fundamental. É nesse contexto que o hematologista entra — avaliando se há alguma condição do sangue que aumenta o risco de perda.
Se você chegou aqui provavelmente encaminhada pelo seu ginecologista, saiba que a investigação hematológica é uma parte importante — mas não a única — da avaliação. A abordagem é sempre multidisciplinar, em parceria com o obstetra.
Trombofilias e gestação: qual a relação
Trombofilias são condições que aumentam a tendência do sangue a formar coágulos. Embora o que vou explicar seja técnico, é importante entender porque oferece esperança: quando diagnosticada, a trombofilia gestacional é tratável. Durante a gravidez, o corpo naturalmente entra em um estado em que o sangue coagula mais facilmente — uma adaptação para proteger contra sangramentos no parto. Em mulheres com trombofilia, essa tendência pode levar à formação de pequenos coágulos nos vasos da placenta.
Esses coágulos podem comprometer o fluxo de sangue para o bebê, causando complicações como: perdas gestacionais de repetição, óbito fetal tardio, restrição de crescimento, pré-eclâmpsia grave e descolamento de placenta.
É fundamental ter clareza sobre dois pontos: nem toda mulher com trombofilia terá complicações na gravidez, e nem todo abortamento de repetição é causado por trombofilia. Na verdade, mesmo após investigação completa (genética, imunológica, uterina), cerca de 50-70% dos casos de abortamento de repetição permanecem sem causa identificada. A investigação serve para encontrar os casos tratáveis — e nesses, o resultado costuma ser positivo.
Síndrome antifosfolípide (SAAF): a principal causa tratável
A síndrome antifosfolípide (SAAF) é a trombofilia adquirida mais importante no contexto obstétrico. É uma doença autoimune em que o corpo produz anticorpos contra componentes das membranas celulares, aumentando o risco de trombose e complicações gestacionais.
O diagnóstico exige a combinação de critérios clínicos (trombose ou complicações obstétricas) com critérios laboratoriais (anticorpos antifosfolípides positivos em pelo menos duas dosagens com intervalo mínimo de 12 semanas). Os principais exames são: anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta2-glicoproteína I (exames de sangue específicos que detectam os anticorpos causadores da síndrome).
A importância de diagnosticar SAAF é que existe tratamento eficaz: o uso de AAS em dose baixa associado a heparina durante a gestação aumenta significativamente a taxa de sucesso gestacional — de cerca de 20% sem tratamento para 70-80% com tratamento adequado.
Trombofilias hereditárias: quando investigar
As trombofilias hereditárias (Fator V de Leiden, mutação da protrombina G20210A, deficiências de proteína C, proteína S e antitrombina) também podem estar associadas a complicações gestacionais, embora a evidência científica seja menos robusta do que para SAAF. Existe debate entre sociedades médicas: algumas recomendam investigação ampla, enquanto outras (como o Royal College of Obstetricians, RCOG) são mais restritivas e recomendam investigação apenas em situações específicas.
Na minha prática, considero a investigação de trombofilias hereditárias quando há: abortamento de repetição sem causa identificada (especialmente após exclusão de causas cromossômicas e uterinas), perda fetal tardia (após 10 semanas), pré-eclâmpsia grave ou HELLP antes de 34 semanas, restrição de crescimento fetal grave, ou histórico pessoal ou familiar de trombose venosa. A decisão é sempre individualizada.
O hematologista solicita um painel de trombofilias que inclui exames genéticos e funcionais. É importante que a coleta seja feita fora da gestação e fora do uso de anticoagulantes, para evitar resultados falso-positivos ou falso-negativos.
Como funciona a consulta com o hematologista
Na consulta, avalio detalhadamente o histórico obstétrico (número de perdas, idade gestacional, se houve investigação prévia), histórico pessoal e familiar de trombose, uso de medicações e anticoncepcionais, e exames já realizados.
A partir disso, solicito os exames pertinentes e, quando o diagnóstico é confirmado, defino o plano de tratamento em conjunto com o obstetra. O acompanhamento durante a gestação inclui ajuste de doses de anticoagulante, monitoramento laboratorial e orientação sobre sinais de alerta.
Se você está planejando engravidar e tem histórico de perdas ou trombose, o ideal é fazer a investigação antes da gestação. Isso permite iniciar o tratamento preventivo desde o início, maximizando as chances de sucesso.
Uma mensagem importante
Sei que a perda gestacional é uma das experiências mais dolorosas que existem. Se você está passando por isso, saiba que a investigação não é apenas burocracia médica — é a busca por uma resposta que pode mudar o desfecho da próxima gestação.
Quando uma trombofilia tratável é identificada — especialmente a SAAF — o tratamento é relativamente simples (injeções subcutâneas de heparina + AAS em dose baixa) e as taxas de sucesso gestacional melhoram significativamente. O mais importante é não desistir antes de investigar — e ter ao lado profissionais que entendam tanto a parte técnica quanto a parte humana dessa jornada.
Saiba mais sobre esta condição:
🫀 Trombose e Trombofilias — Diagnóstico e tratamento →Referências
- ACOG Practice Bulletin No. 197. Inherited Thrombophilias in Pregnancy. Obstetrics & Gynecology, 2018.
- Miyakis S, et al. International consensus statement on classification criteria for definite antiphospholipid syndrome. J Thromb Haemost, 2006.
- Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Diretrizes e consensos — disponíveis em abhh.org.br.
- Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG). Recurrent Miscarriage — Green-top Guideline No. 17, 2023.
Nota: Este artigo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a avaliação médica individual. Se você tem sintomas ou exames alterados, procure um hematologista para avaliação personalizada.